* veja o artigo completo em http://www.geocities.com/revistaintelecto/iamc.html MÁQUINAS HUMANAS: A CONTINUIDADE ENTRE O HOMEM Nas suas conferências de “Introdução à Psicanálise”, proferidas em Viena entre 1915 e 1917, Freud sugeriu qual seria o seu próprio lugar entre os grandes pensadores do passado que ultrajaram o ingénuo amor-próprio do Homem. O primeiro da série foi Copérnico, que aboliu a primeira descontinuidade, ao ensinar que a Terra “não era o centro do Universo, mas apenas uma pequena partícula num sistema do Mundo de uma magnitude dificilmente concebível”. O segundo foi Darwin, que “roubou ao Homem o peculiar privilégio de ter sido especialmente criado e o relegou a descendente do mundo animal”. Terceiro, agora, o próprio Freud admitiu pelas suas palavras que a Psicanálise “se esforçava por provar que o ego de cada um de nós nem sequer é senhor da sua própria casa, mas que se deve dar por satisfeito com os refugos de informação acerca do que se passa inconscientemente no seu espírito”. (5)
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Nesta versão das três ego-sabotagens históricas o Homem é colocado num espectro contínuo, que desde o inorgânico passa pelo restante reino animal, atravessa a história da sua cultura e percorre o passado pessoal. Deixa, assim, de ser descontínuo em relação ao mundo que o rodeia. No entanto, uma quarta e aparentemente maior descontinuidade existe aind Tentarei explicar o que esta descontinuidade envolve. Há hoje bastantes provas de que o Homem evoluiu dos outros animais até à sua humanização através de uma interacção contínua de transformações: físicas, dos utensílios e mentais - emocionais. A visão antiga de que o Homem primitivo chegou ao teatro da evolução completamente formado e começou a descobrir utensílios e os novos modos de vida que aqueles tornaram possíveis já não é crível. Com as provas que se acumulam é hoje possível especular com alguma confiança sobre o modo como a forma de vida tornada possível pelos utensílios mudou a pressão da selecção natural, transformando assim a estrutura física e mental do Homem (6). O locus classicus da insistência na quarta descontinuidade é o trabalho de Descartes. No seu “Discurso do Método”, por exemplo, coloca Deus e a alma de um lado, sem localização espacial ou extensão, e o mundo material- -mecânico, em todos os seus aspectos, do outro. Ele imagina que Deus formou o corpo do Homem, tanto na configuração externa como na interna, sem usar na sua composição senão matéria física. Assume também que Deus não pôs nesse corpo nenhuma alma racional (definida por Descartes como “aquela parte de nós distinta do corpo cuja essência... consiste apenas em pensar”). Postos nos seus termos mais simples, os dois critérios de Descartes para discriminar o Homem da Máquina são que a última (1) não tem mecanismos de retroacção e de auto-referência (“nunca poderiam modificar as suas partes’’) e (2) não tem razão generalizante (“a razão é um instrumento universal que pode ser usado em toda a espécie de situações”). Mas é exactamente nestes pontos que hoje já não somos capazes de manter essa dicotomia (7). O hiato entre o pensar do Homem e o das suas Máquinas pensantes foi grandemente encurtado pela investigação recente em IA e os seus programas para computador que entendem a língua falada e escrita, que demonstram novos teoremas matemáticos, que fazem diagnóstico médico, que jogam xadrez, que constroem outros programas e que, actualmente, se encontram no limiar de potentes capacidades introspectivas, bem como de formar embriões de sociedades através das redes locais e teleinformáticas. Para Descartes, eliminar a descontinuidade entre o Homem e as Máquinas seria banir Deus do Universo. “A alma racional, insistia Descartes, não poderia de forma nenhuma derivar dos poderes da matéria... mas deveria ter sido criada por Deus.” Criação especial requer Deus, uma criação especial - o raciocínio de Descartes é circular. O choque para o ego do Homem ao aprender a lição darwiniana de que não foi “especialmente criado” é, sob esta luz, apenas um abalo distante do grande terramoto que estilhaçou a visão que tinha de Deus e de si próprio. Os obstáculos à remoção não apenas das três primeiras, mas também da quarta descontinuidade, estão profundamente enraizados no orgulho que o Homem tem do seu lugar na Natureza (8). |
domingo, 18 de maio de 2008
A quarta descontinuidade
Criado (ou plagiado)
normannovaes
às
18:14
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