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sábado, 15 de março de 2008

O preço das coisas

O preço das coisas - http://andrelaurentino.blogspot.com/

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
“Tudo em São Paulo é caro”, diz meu pai cada vez que vem aqui. Contabiliza tudo. Do preço do lava-jato no posto ao couvert do restaurante. Geralmente tiro sarro, e digo que ele está errado: usa moeda recifense para calcular preço paulista. Na última vez em que me visitou, e eu pude sair do trabalho para vê-lo, me pediu que o levasse à Vila Buarque para comprar uma antena de rádio. “Uma antena de rádio?”, perguntei. Na Vila Buarque? Não tem isso em Olinda? Tem. Mas deve ser 12 reais mais cara. Argumentei que a diferença não valia o passeio (passeio é modo de dizer). Não deu resultado, fomos mesmo assim.

Mas quando sou eu que vou a Olinda, uma vez por ano e olhe lá, começo a achar que ele tem razão. Porque a vida em Olinda é regida por outros planetas.

Lembro de uma viagem, no carnaval de 98, quando levei uma turma de amigos para conhecer a melhor festa do mundo. Fomos direto para um almoço lá em casa. Minha mãe se esmerou no bobó de camarão, no feijão de coco, no feijão verde, na moqueca de cioba, no pirão perfeito. A turma teria que abandonar as ladeiras de Olinda para dar conta de comer tudo. Meu pai ficou sabendo que, entre os amigos, estava Luciano Zuffo — um apreciador de vinhos. Ah! Meu pai quis logo demonstrar uma teoria. Foi na despensa e pegou uma garrafa empoeirada de vinho de sacristia que ele toma aos sábados. Não chega a vinte reais. Antes, me alertou: “não diga nada. Vinho é rótulo!”. Mamãe lavou as taças do enxoval de casamento e levou o vinho humilde, quase transparente, já servido em pequenos cálices de cristal trabalhado.

Antes do banquete meu pai distribuiu o vinho, dizendo ser do Porto. Luciano tomou um gole, e engoliu sua careta junto com o vinagre adocicado da sacristia. “Gostou?” meu pai quis saber. Luciano assentiu sorrindo, e bebeu cinco goles seguidos de suco de cajá. Até hoje meu pai se gaba de haver enganado um enólogo de São Paulo. Quanto mais eu nego, mais ele ri.

Depois que voltei, mandei uma boa garrafa de vinho do Porto para meu pai. Recomendei que buscasse notar a diferença, no que fui prontamente atendido. Ele adorou o vinho, embora custasse mais caro. Gostou tanto que quis mostrar aos parentes.

Quando nosso tio Vivi apareceu em casa, ele não titubeou. Serviu-lhe no mesmo cálice de cristal, obedecendo meus cuidados de não balançar a garrafa para não turvar o líquido. E disse: “Vivi, veja que coisa espetacular!”. Vivi olhou para o copo e, antes mesmo de provar, elogiou: “Há! Isso é bom é com limão”. Espremeu meio limão na taça e tragou de um gole só. Não comentou do sabor. Falou de outras coisas, da vida em Bezerros, do preço de tudo. Deram boas risadas, comendo o tira-gosto.

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" diz-se das contracções próprias das fibras musculares do estômago e do intestino, para impelirem, até à expulsão, as substâncias não assimiladas pelo organismo "

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